Ontem à noite, logo após ter dado os primeiros passos, ainda tímidos e incipientes, na construção deste blogue e de me ter mudado as fraldas, borradas de uma indisfarçável alegria por ter conseguido a publicação do meu primeiro texto, redigido à luz da inspiração naquele momento de criação - intitulado "era uma vez..." -, senti uma emoção estranha, difícil de definir na altura em toda a sua profundidade e extensão, mas que muito me entristecia e perturbava o espirito... algo bem pior do que um simples ou habitual desassossego, mais do tipo de uma profunda consternação, semelhante hà que sentimos quando nos dizem que alguêm vai partir ou partiu, para sempre... foi, então, que por volta da meia-noite, sob um céu negro de dúvidas e o receio de que a hora final para um doente meu estaria mais próxima do que o previsto, escrevi o seguinte...
Enquanto Eu estou aparentemente confortável, sentado em frente ao monitor do computador, onde escrevo e releio estas palavras de circunstância, tu, António... estás deitado numa cama articulada no hospital, num quarto vazio de esperança, só e frágil, enfrentando o drama das terríveis maleitas que não te tem deixado descansar e viver em paz, continuam a ferir e atormentar o teu bem estar (o teu e o dos que, tão incansavelmente, te tem rodeado de amor e carinho), e irão um dia destes conduzir-te a um novo e fatal destino. Sinceramente, não sei qual é, mas não vai ser certamente o mesmo que te trouxe até mim, aquele com que ambos sonhamos desde o dia em que nos encontrámos, animado pelo desejo mútuo em vencer, uma vez mais, o teu cabo das tormentas... Se ao menos pudesses ter vindo, desta vez, mais cedo e menos doente, mais capaz de reagir e de responder aos cuidados que todos te dedicaram nos últimos dias, talvez o curso dos acontecimentos tivesse sido diferente... ou talvez não, quem sabe, nunca se sabe.
Agora, nada mais podemos fazer, a não ser enfrentar este teu derradeiro momento final, sem remorsos. Silenciar-nos e dobrar-nos perante Ti, humildemente. Revoltados, é certo, com a dimensão do teu sofrimento e tristeza, mas com pleno sentido de respeito pela tua dignidade, enquanto ser humano, mortal como todos nós. Ainda que em horas diferentes.
Indubitávelmente impotentes e profundamente indignados com o facto de não termos podido ou conseguido fazer melhor. Pela parte que me respeita, sinto muito... António!
Quem me dera ter o dom de poder impedir o desfecho que se te avizinha, mas julgo não ser mais possível negar o que se tornou irremediávelmente perdida... a tua vida!
Não é a primeira vez que me confronto com esta situação. Sou médico há muitos anos e por múltiplas ocasiões me deparei com circunstâncias dramáticas, semelhantes à tua... isto é, a de uma morte anunciada pela gravidade da doença, e com sinais à vista. Nestas alturas, sinto-me como um parvo e questiono tudo, incluindo o sentido desta vida, do seu criador e de todos nós, enquanto criaturas. Até à data, sem qualquer resposta satisfatória. E por mais que procure, creio bem que nunca irei encontrar a solução para este tipo de problemas, pois caso tal acontecesse, em momento útil, não ficaria tão irritado comigo próprio e com tudo o que julgamos responsável pelo fim das nossas vidas; as soluções seriam oportunas e terapêuticas, não apenas no plano da saúde mas também do amor. Na impossibilidade de garantir a primeira (a saúde), restar-nos-ia a consolação de nunca nos faltar o segundo (o amor!).
Se Eu fosse Deus, o criador de todos nós, não pouparia esforços para nos tornarmos imortais, e empenhar-me-ia, sem limites, para dignificar e perpetuar a nossa imortalidade... por via da defesa e respeito por valores, sublimes e universais, acessíveis a todos nós; entre estes, o mais valioso, é o amor! Porque os outros, todos sabemos quais são, não vale a pena enunciá-los... se calhar, é a ausência deles que nos torna mais frágeis e mortais! Não sei. No caso do amor, esse, se pensarmos bem e o sentirmos ainda melhor, nunca morre! Além disso, permanece e reforça-se na memória dos que ficam, quando partimos. Por alguma razão, são apreciadas e relembradas as nossas qualidades quando já não estamos cá... porque enquanto cá andamos, até parece que só tínhamos defeitos... (e até estes são perdoados pelo e com o amor). Pois é!, o amor nunca morre, nem antes nem depois, a não ser quando o matamos de vez, com ignorância, indiferença, ciúme ou vingança.
Não sendo Deus, tenho de me sustentar com o que sei e posso fazer a cada momento, no dia a dia das nossas vidas, sobretudo nestas alturas de mágoa e sofrimento, em que por vezes nos encontramos. Razão pela qual, quanto mais souber e poder fazer, mais habilitado estarei para ajudar e cuidar dos meus semelhantes em risco de partir... para o tal destino, que eu não sei bem onde fica ou o que é... mas a que ninguêm poderá fugir.
Por isso, acredita António!, se entretanto partires não te vou esquecer... tu e muitos outros, que persistem em por-me à prova, constantemente. Que alimentam este desafio dentro de mim para que nunca desista, para não me resignar ante as dificuldades e contratempos, para que consiga manter a chama que ilumina esta ânsia de conhecimento e vontade de ser melhor, não apenas como médico, mas também como ser humano, mortal e igual a Vós!
Nota:
Cerca das 4 horas e meia da madrugada, o meu colega de serviço telefonou-me a comunicar o que já se previa... o António acabara de partir, para sempre! Como será fácil de compreender, o meu dia não foi nada fácil, hoje! E por aqui me fico...
JFrank

Sem comentários:
Enviar um comentário